“O que amas de verdade permanece,
O resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira.”
Ezra Pound
(Trecho do Canto 81)
Para falar do amor verdadeiro é preferível arriscar pelo dizer da alma, despretensioso e livre, sem as amarras das construções e considerações sabidas e sabe-se lá mais o quê.
O amor verdadeiro é aquele que chega devagarzinho, anunciado ou não, desejado ou não. Só se pode dizer que chega, fica, nem sempre, para sempre, mas ainda assim produz efeitos. Amor verdadeiro é aquele que move ou paralisa, dependendo da sua natureza, mas sempre deixa um rastro avassalador, na medida em que é capaz de definir destinos.
O amor, na sua presença ou ausência, nos introduz na cultura e nos implica na ordem da responsabilização do nosso desejo. E assim, vamos nos engendrando nas teias amorosas vida afora, sem querer saber das consequências, mas apostando na cenoura prometida, colocada à frente da testa do cavalo que corre para alcançá-la. O cavalo corre atrás de algo que está preso, amarrado, ao seu próprio corpo. Embora a ele, ao corpo, não pertença, dele faz parte. Por ter um vazio que o recobre, o artifício que sustenta a cenoura, a vara, parece estar fora, prometendo algo que possa lhe dar prazer ou mesmo saciar sua fome. E assim é o amor. O paraíso está no Outro, mas não em qualquer outro. Há que ter um traço que represente algo do próprio sujeito ou da sua experiência. A vara que a sustenta mantém a cenoura na frente, como algo a ser alcançado, mas, ao mesmo tempo, embora desconhecido pelo cavalo, impossível de se alcançar. E nós, mesmo sabendo disso, tal como o cavalo, corremos atrás da cenoura. Só que o cavalo não sabe que existe um artifício que a prende ao seu corpo e que a cenoura é inalcançável. E nós, sabemos? Se sabemos, por que corremos?
Ainda que pretensioso, emprestando palavras de Ezra Pound, ouso dizer que corremos porque o amor verdadeiro permanece como traço que não nos abandona nunca, e nunca nos será arrancado, posto que é herança de uma experiência que temos a esperança de reviver, ainda que do não sabido.
Mariângela Di Bella, novembro/2023