A borda fluminista…

A borda fluminista estava matizada em cor de ouro, não porque era outono, mas porque a seca fazia o rio diminuir, diminuir, quebrar o seu encanto e se tornar terra seca. Ouro só no nome, pois terra seca pode representar a vida quando a natureza revive, mas naquele caso a falta d’agua só gerava falta, abandono. Abandono da fartura, abandono de um tempo alegre. O calor pode ser bom, mas também pode ser mau. A ambivalência da vida.

Rosária Russo

Meio grávida

Não existe meio grávida.
Ou é ou não é.
Não complica.
Não há matizes nesse tipo de questão.
Eu comecei a reviver o que tinha acontecido na minha memória e imaginação e tinha dificuldade de ver as coisas de uma forma tão binária quanto o meu amigo empresário.

Como um rio, há muitas correntes e camadas de significado na vida, umas interferindo nas outras. Me lembro de uma vez em que estava quente na superfície, frio na barriga e morno no pé. Um amigo oceanógrafo me explicou por que isso acontecia. E a vida me parece ser assim, não consigo às vezes ter uma leitura binária.

Mas a leitura dele era assim, então eu aceitei os termos dele, e saí refletindo.
Não existe meio grávida.

João Correia

O buraco da Consolação

Passando por debaixo do Minhocão, reparei na ausência dos moradores de rua que ali costumavam ficar.

Poucos metros depois, minhas dúvidas deram lugar a uma cena perturbadora e impactante. Aqueles por quem eu procurava estavam todos incrustados nos buracos das paredes do túnel que sustentam a Consolação e a Praça Roosevelt, chamado por aqui de Buraco da Consolação.

Feito bichos (vermes) em suas tocas (seus buracos putrefatos), não sei ao certo quantas dezenas, entravam e saiam daqueles buracos, supostos e temporários abrigos, nos apontando para o descaso e a desassistência vivida por tantos em São Paulo e pelo mundo afora.

A frase “O homem é o lobo do homem.” (1) não parava de me rosnar, feito uma onomatopeia viva. Seguindo meu percurso, um turbilhão de pensamentos sobre a natureza humana tomou conta de mim, sem o menor dó. Imagens de refugiados por terra ou mar, de expatriados, de explorados, de civis e soldados em guerra, de desabrigados, de toda a sorte de homens, mulheres e crianças sem sorte, encheram os espaços vazios do meu carro, me espremendo em uma angústia que pouco me deixava respirar.

Por ironia, o endereço do meu destino era o Paraíso. Quase chegando, parando no sinal, presencio o final de um assalto. Um jovem correndo feito maratonista com algo na mão e um senhor, já de idade avançada, vociferando atônito, reclamando seu celular. Pensei: o paraíso não existe, é só nome de bairro…uma utopia.

Na volta, o Waze me ordenava um caminho um pouco mais longo, porém menos congestionado, passando pela Liberdade. Contrariei o aplicativo, falando comigo mesma, e com meus inúmeros passageiros imaginários, que não iria cair novamente numa roubada. Se no Paraíso a cena era dantesca, imagine o que eu poderia encontrar na Liberdade!!!!!

Peguei o caminho conhecido de volta, lembrando que tinha que reler o pequeno texto de Ruysbroeck, O anel e a pedra brilhante. E, passando novamente por aquele túnel, não pude deixar de pensar numa passagem do texto que me capturou: “Pela boca do Profeta, o Senhor também disse de Si mesmo: ‘Eu sou um verme e não um homem, desprezado pelos homens e rejeitado pelo povo (17).’ ” E ali estavam dezenas de Senhores, desprezados por todos nós, também vermes.

Durante a releitura, só pude pensar que a pedra de cada um não brilha intensamente, nem é vermelha como uma chama ardente, não é pequena e redonda e, muito menos, completamente plana e leve, como descreve Ruysbroeck. A pedra de cada um de nós, humanos, não é virtuosa. São pedras duras, brutas, que constroem muros que tapam alguns buracos pela via da consolação.

Mariângela R. Di Bella

SP 23/10/23

(1)- Thomas Hobbes (1588-1679), autor do clássico Leviatã, foi o responsável por divulgar a célebre frase “O homem é o lobo do homem”, inserida no seu livro mais famoso. A frase original, no entanto, traduzida para o latim como “homo homini lupus“, pertence ao dramaturgo romano Plautus (254-184 a.C.). A oração, metafórica, quer dizer que o homem é um animal que ameaça a sua própria espécie. O que a máxima sublinha é a capacidade destruidora do ser humano contra os seus.

Textos de Alunos e Integrantes do Grupo de Escrita 

Nada me pareceu mais motivante, para começar este blog, do que os textos de uma aluna muito querida de 1997-1999 do Colégio Oswald de Andrade, a Julia Chaim Salles (Ducamin, hoje em dia). No primeiro texto, ela devia ter 15 anos, e, no segundo, 17 ou  quase isso.

Mamãe

Minha mãe tem a face maliforme, coisa que lhe dá uma leviandade que nenhuma outra mãe possui. 

À medida que eu melindrava, percebia o quanto ela tinha influxo sobre mim e me fazia ver coisas novas, perceber que eu não sou monopse, portanto sempre posso reflexionar e encontrar minha posição. 

Minha mãe está sempre colaborando para que nos tornemos mais ilustrados, está sempre presente, nos almoços e nos jantares, em cada prato de arroz e feijão. 

Eu dou boas galhofadas com minha mãe e com o que fazem com ela, mas nós não nos importamos desde que nós, todos nós, consigamos altercar.

Talvez eu seja apenas mais um culteranista, ou mais um fobó, mas acho que mesmo assim sendo, sou ditoso. 

Minha mãe é pródiga, é Severinos de pia, é verme que rói frias carnes de cadáveres, é besouro que deflora Rosa, é grande sertão veredas, é trem de ferro café com pão, é pedra no meio do caminho, é triste fim de majores, é estorvo, é história. 

Minha mãe, meus caros, é a Língua Brasileira!

Julia Chaim Salles, 1997.

Sobre bússolas, navegações e imprecisões

– enfim, sobre a vida –

Precisar não é preciso, por mais incrível que pareça; também não é navegar. A bússola é precisa e é navegar. Viver não é bússola. 

Existem pessoas que tentam fazer de suas vidas uma bússola; o problema é que durante o percurso os nortes mudam. Com o norte vão todos os referenciais e os cardeais nos condenam. Somos os desnorteados da sociedade, providos de tudo, sonhos, anseios, só não de norte. 

A situação agrava-se quando tentam nos impor direções. Somos por natureza ímãs tortos, eletrons desordenados, átomos soltos que não navegam, vivem. 

Ainda construiremos bússolas loucas, que apontem para cima e para dentro, e com essas bússolas orientaremos o preciso, o navegar e o viver.

Julia Chaim Salles, 1999.  

 

Seguem exercícios de escrita do Grupo de 2017…

Um Encontro

Rita Cardeal

Parecia um leve toque no corpo, um chamado baixo mas insistente, uma espera. Eu permanecia na mesma posição, no esforço por me manter atenta à fala que era para todos.

Não entendia tudo o que significava aquela proposta e nem me lembro bem, mas talvez tenha recebido alguma informação sobre os passos seguintes. Com 10 anos sabia apenas, e com certeza, que o grupo escolar se encerraria. Era por isso que ali estava ouvindo a fala que era para todos, a fala de uma professora.

O grupo era minha escola primária, o tempo do meu encontro primeiro com as letras e os mapas. Saber ler e localizar lugares era tão envolvente que me tomava grande parte dos interesses; e, de tal maneira ficava à mercê desta magia, que outras descobertas eram quase esquecidas. À espreita da importância das letras e seus deciframentos, descobri que elas podiam se transformar em palavras, ficar dentro de livros, habitar mentes, traduzir pensamentos, revelar sentimentos. Então era preciso saber lidar com as letras, era fundamental saber ler.

E os mapas, ah os mapas! Lugares e movimentações do que parece estático: as terras que viram montanhas, as montanhas que se desmancham em planícies, as planícies que se interrompem e abrem brechas pra águas e matas. Tudo com nome e divisões. Foi assim minha descoberta de que ao dar um passo poderia estar noutro estado, noutro território, noutro mundo. Descobri que os lugares apenas o são na relação com seus vizinhos, o alto existe se o baixo for seu parceiro.

O grupo escolar ia terminar, à frente vinha o ginásio e para lá estar tinha um curso preparatório que se chamava admissão.

Era em uma aula deste curso preparatório que eu estava quando senti o corpo tocado, o chamado em espera. Naquele momento as letras… os mapas… onde mesmo eu estava? Aquilo não se parecia com palavra falada ou escrita, e do lugar que ficava atrás de mim vinha um certo silêncio, um vazio colocado, algo que não me deixava saber do que se tratava , sem som nem desenho. Ainda assim, ou por isto mesmo, virei-me. Fui acolhida por um olhar, olhos negros que me olhavam, me envolviam, não me deixavam brecha para escapar, se o quisesse. Fui capturada no corpo por olhos que me olhavam e viam em mim e para além de mim o que eu desconhecia, mas do que curiosamente não quis escapar. Foi neste momento infinito que um olhar atravessou meu corpo, embaralhou as letras de minha cabeça, as transformou em sensações, me levou para outro território e me apaixonei pela primeira vez.

 

O Mergulho

Mariângela R. Di Bella

Um mês… um mês que ela se fora sem se despedir, sem avisar, sem dizer nada. Abruptamente, vítima de um acidente fatal. A vida tem essa mania de nos pegar desprevenidos. E, em meio àquele luto sufocante de uma orfandade desavisada, uma viagem inesperada! De repente aquela imensidão meio verde, meio azul: o mar cearense. Um mergulho… tchibummm. E, quando voltei à cena, tudo tinha passado: a dor, o luto, a tristeza, menos a impressão de que aquela imensidão meio verde/meio azul eram os olhos dela. Um reencontro com o olhar meio verde, meio azul! Então, tudo leve. A água meio verde/meio azul levou as lágrimas, o corpo exaurido, os porquês e mandou de volta a alegria, a brisa suave e a vontade de seguir em frente. Afago de mãe. Saí correndo e dei um beijo agradecido nele, que me havia levado para ver o mar.

São Paulo, março de 2017