Medo

O medo em geral é um sentimento normal em nossa natureza humana. Na verdade, ele nos protege de coisas arriscadas para nossa vida e a vida de nossos entes queridos. Isso se torna um problema apenas quando anula o seu comportamento normal e você decide ficar na sua zona segura para sempre, escolhendo não lutar nem por seus sonhos, nem por suas esperanças. Ele é, então, uma luta ou uma fuga nos desafios da vida.

Se você quer fugir de cada momento difícil, com medo de perder ou fracassar, quando isso supera repetidamente o que você pensa, é quando você precisa procurar ajuda.

Deixe-me falar sobre alguns dos meus medos, como o medo de sentir falta da minha pátria amada, o medo de não me adaptar às novas mudanças da vida, o medo de perder minha carreira, o medo do futuro  desconhecido dos meus filhos, sem qualquer ajuda da minha família vivendo do outro lado do mundo.

Ah! Esqueci de dizer que vivo como uma estrangeira longe da minha casa, longe dos meus sonhos, contra minha vontade, sem nenhum aviso, eles dizem que é a vida!

No entanto, tudo isso pode ser tratado, pois tais medos ainda são  gerenciáveis. Os medos dentro de você como ser humano são os mais difíceis, pois eles o controlam profundamente por dentro, especialmente quando são ignorados.

Testemunhar o assassinato de alguém com quem você se importa e foi ameaçado por sua vida; muitos de seus parentes sendo capturados e torturados; e depois disso pedirem para você  deixar à força seu sucesso, família e carreira nessa jovem idade, imagine sofrer essa injustiça inevitável sem motivo… Essa é apenas uma perspectiva da minha própria batalha de sobrevivência!

Na psiquiatria, os médicos dizem que a dor é saudável para a cura. Mas e se for demais?! E se for repetida?! E se for maior do que você pode suportar?! É claro que terá seu efeito. Acredite em mim ou não, às vezes sendo repetidamente esmagada até não ser mais você mesma, se transformando em alguém que você não conhece, sofrendo de distúrbios de humor que podem ter uma explosão descontrolada inevitável de todos esses medos confusos, qualquer que seja o gatilho. Na minha opinião, isso é o pior de tudo, não se conhecendo nem se satisfazendo, embora você precise continuar. 

O mundo profundo jaz só dentro de você.  

Somaya Seif (querida aluna egípcia do curso de Português para Falantes de Outras Línguas, na UFABC, 2020)

Textos de Yubiry Gonzalez

Yubiry, venezuelana, foi minha aluna no curso de Português para Falantes de Outras Línguas, na UFABC, em 2020., durante seu mestrado. Alguns de seus textos foram para o site da Universidade, dos quais seguem por enquanto os dois primeiros. Yubiry tem muitos talentos e um deles é a escrita – por isso em breve adicionarei mais textos seus aqui.

Crônicas de Yubiry González, Intermediário II, 2020:

Minha Avó

Edita Ramona González, nome que foi dado a minha avó, é quase que a única lembrança que ela tem de seus pais, que morreram quando  ainda era  uma criança.

Minha avó tinha vivido todos seus anos, antes de se casar, com a sua tia “Monona”, irmã de sua mãe, de quem recebeu algo de educação básica, além de algumas ferramentas de trabalho, como a costura e cozinha. 

Quando Edita tinha 19 anos, conheceu seu primeiro esposo e pai de seus primeiros três filhos. Justo neste ponto, começa uma de suas vivências mais difíceis, e que marca um dos mais importantes pontos de inflexão na sua vida.

Seu primeiro esposo era um homem com uma posição social e política muito boa, sendo prefeito da cidade onde morava. Como homem de política, estava acostumado a ter muitas pessoas a seu redor, frequentando diferentes espaços de  reunião, negócios e diversão, não sobrando tempo para conviver com minha avó e seus primeiros filhos.

Um dia, depois do nascimento da última criança, sua primeira menina (Silvia),  o esposo chegou em casa com outra mulher, sem ter dito previamente para sua esposa que ela iria morar ali. 

 — Como assim? – perguntou minha avó com muita preocupação. – Ela é aquela mulher de seus lugarzinhos de diversão? Aquela prostituta de quem todos falam?

Muito brava, começou a discutir com ele. Naquele momento, como em muitos outros, ele estava bêbado, e fez uma coisa que nunca tinha feito: golpeou fortemente a minha avó, pensando, talvez, que com a força podia conseguir sua aprovação, mas ela nunca teria aceitado aquela forma de viver.

À noite, minha avó não conseguiu dormir, passou cada hora no quarto dos filhos, chorando e pensando em tudo o que tinha acontecido: 

— Mas, para onde? — pensava com muita aflição. — Conseguirei sobreviver com todos os meus filhos sem um esposo? Onde moraremos? Será justo para eles? — essas, e muitas perguntas vinham constantemente no transcurso de cada hora. 

Quando eram aproximadamente  quatro da manhã, tomou a decisão de fugir, sem um rumo fixo, só para escapar daquela miserável vida que a esperava.

Pegou tudo quanto conseguiu, roupa para ela e seus filhos,  algum  dinheiro e algumas joias que poderia vender em caso de emergência, e assim com medo, mas também com muita coragem,  insistiu em que deixaria aquela vida para sempre, saindo rapidamente da casa. 

 O menino mais velho  tinha apenas quatro anos e, sem entender nada do que estava acontecendo, perguntou:

— Mamãe, para onde vamos? E o papai, por que não vem?

— É melhor ficar calmo, meu filho, precisamos fazer uma pequena viagem — falou com muita placidez minha avó. — Lembra que  seu pai sempre fala que, se vocês quiserem fazer uma viagem, podem fazê-la comigo?

Ela conseguiu pegar o primeiro ônibus que passava perto da casa, e, no caminho com os filhos, ia pensando que coisas faria. Ela sabia que o seu marido, quando acordasse,  ia se dar conta do acontecido e, se  não tentasse ficar o mais longe possível, ele  poderia encontrá-la. 

Desceu e subiu em mais de cinco ônibus, pensando em ir cada vez mais longe,  sempre tentando pegar alguns caminhos pouco convencionais, para evitar ser encontrada.

Era aproximadamente  meio dia, um dia muito quente, talvez   40 graus de temperatura, sem comer nada, alimento só para  os meninos. O ônibus onde estava foi parado pela polícia,  e rapidamente ela pegou os filhos e tentou cobrir seu rosto. A polícia, sem maior escusa, pediu para que descessem todas as mulheres; ela não sabia o que fazer, só pensou que talvez a sorte nesse dia estaria do seu lado.

Um dos policiais  perguntou para ela:

— Qual é o seu nome, senhora?

Muito nervosa, e tentando esconder a menina mais nova, respondeu:

— Me chamo Maria.

Rapidamente, o policial se deu conta que nas coisas dela algo  estava se movendo. Nesse momento ele retirou as mantas e viu a menina. Imediatamente chamou seu superior, pensando que tinha encontrado a pessoa que procuravam. 

O policial superior rápido se aproximou e a reconheceu. Era Edita, a mulher do prefeito. Primeiro ordenou que o ônibus partisse e logo mandou  levar todas as crianças para o carro dos policiais; em seguida  pegou Edita pelas costas e falou: 

— Vamos caminhar um pouco, mulher! Nada de olhar para trás.

 — Para onde, policial, para o mato? Preciso de meus filhos, por favor —nervosamente lhe falava.

— Calma, preciso cumprir ordens, não fale.

Caminharam por alguns  minutos em direção à mata. Ao chegar lá, ele disse:

— Mulher, mulher… A ordem foi muito precisa: pegar as crianças,  matar você e, cumprida a ordem, retornar com eles. Mas eu vou lhe dar uma alternativa. Você vai ter a opção de ir longe, aonde você quiser, esquecer seus filhos, e começar uma vida nova. Nunca mais poderá aparecer, porque sua sorte pode ser outra. Se eu fosse você aceitaria, eu só vou disparar para o ar, mas, se você não aceitar, vou ter que matá-la.

— O que meu marido falou sobre mim, por que me quer fazer tudo isso?

— Ele disse que você tinha roubado umas coisas que ele havia comprado e que isso era uma traição. 

 Muito confusa, nervosa, com um nó na garganta e baixando a cabeça,  falou suavemente:

  — Aceito, vou para longe e nunca mais aquele homem vai saber de mim, só por favor não conte nada para  meus filhos, deixe que ele dê a versão que  quiser.

  O policial retornou e falou para seus companheiros:

  — O pedido foi cumprido, agora podemos retornar. 

Assim, minha avó ficou escondida nessa mata até o final da tarde. Quando saiu dali, pegou um ônibus e continuou seu caminho. Muito longe daquele lugar, mudou seu nome para Eva e, fiel a sua promessa, iniciou uma nova vida. Arrumou um  trabalho, e, com os anos, passou a ter a companhia de novos filhos.

Aqueles meninos que voltaram para  seu antigo esposo só souberam uma versão da história:

— Sua mãe os abandonou, ela disse que não queria ficar com vocês e decidiu deixá-los comigo porque ela queria outra vida, sem vocês e sem mim.

 Dessa forma, com tristeza e posteriormente rancor, aquelas crianças cresceram,  transformando-se em adultos que pensavam em sua mãe com raiva.  

 Depois de 20 anos, aquela menina que tinha uns quantos meses quando a minha avó teve que deixá-la, um dia decidiu procurar a sua mãe, saber por que ela a abandonou.

Foi por vários vilarejos, próximos da sua cidade, e nenhuma resposta. Logo decidiu ir mais longe, aproximadamente oito horas de distância. Ali perguntou a muitas pessoas por Edita, mas ninguém a conhecia. Um dia, antes de ela se decepcionar com sua viagem, uma senhora se aproximou  e perguntou:

 — Olha, moça, tenho visto  você por aqui faz vários dias, e, depois de olhá-la em diversas ocasiões,  lembrou-me de uma senhora que chegou há mais de quinze anos por aqui, seu nome é Eva, e você é muito parecida com ela.

A moça se emocionou, e perguntou:

— Onde mora ela? Talvez a senhora conheça a pessoa que estou buscando.

Ela lhe deu o endereço, e rapidamente Silvia se apressou  a procurar a casa de Eva.

Quando chegou nessa casa, viam-se seis meninos, bem magros, e descuidados, alguns sem roupa. A  menina mais velha se aproximou e perguntou:

 — Com quem você quer falar, moça? Você parece vinda dum conto de fadas. Acho que se confundiu de lugar.

Silvia também achou que havia se confundido, mas perguntou se ali morava a senhora Eva.

 — Claro! É nossa mãe. Tem sorte de encontrá-la, pois sempre está de viagem trabalhando.

Gritou: 

— Mãeee!

 “Olha, moça, em minha escola precisam de uma professora, vai ser você?”

Silvia só sorriu.

Eva se aproximou da porta e, quando viu  Silvia, suas lágrimas começaram a sair de repente, sem explicação, como se o tempo não tivesse passado. Elas se reconheceram, era a sua pequena que só tinha alguns meses desde a última vez que a vira, sem esquecê-la jamais.

Depois de se abraçarem fortemente, Silvia ficou alguns dias ali, ouvindo a verdadeira história da separação dos pais, conhecendo a sua verdadeira mãe,  seus novos irmãos e irmãs, cujos nomes ainda não sabia, uma delas minha mãe, compartilhando histórias de vida, oferecendo-lhes um afeto de anos guardado com muito carinho e criando laços que nunca mais desapareceriam.

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Diário temático

Os sons da cotidianidade

O tema relaciona determinados sons de minha cotidianidade, que neste período de quarentena me levam a diversas emoções, pensamentos e/ ou anedotas de minha vida.

Dia 1. Golpes de martelos

Os  golpes dos martelos  nascem da força de cada homem, ritmicamente perfeitos, com certa aleatoriedade, constroem o futuro desta cidade, constroem os sonhos de muitas pessoas. Essa força fará levantar uma edificação que pode não ter um significado profundo ante muitas outras edificações, mas só penso, 

                                        terá algum significado para eles, os construtores?

                                        forma parte de algum de seus sonhos?

                                        sentem-no como parte de sua criação artística?

                                       compreenderam o significado histórico de seu labor? 

Por minha parte só penso na importância de cada um deles para o futuro da mesma humanidade. 

Os golpes dos martelos de algum jeito nos unem, numa história comum.

Dia 3. late janis!

A linguagem dos cachorros se reduz a pequenos, breves, fracos ou fortes latidos, que nos podem:

          Assustar

             Incomodar

                 Fazer lembrar

                       Ajudar a identificar 

É a forma mais próxima para se comunicar com outros cachorros. Janis frequentemente late para outros e algumas vezes eles respondem. 

Curiosas, todas as formas de nos comunicarmos!

Dia 8. A vibração das cordas

A energia contida na vibração duma corda é transferida a outras, produzindo às vezes o fenômeno da ressonância; esta nova corda, então, vibrará produzindo um novo som; ambos chegam a essa caixa, acontecem reflexões, interferências, difrações, e possivelmente conseguiremos ouvir outros sons que nasceram de todo esse processo físico.

            O som claro  e escuro

                        O som brilhante ou opaco 

                                   O som nítido ou embaçado 

Cada um deles, com suas qualidades tímbricas, pode chegar a se transformar em pequenos e breves fragmentos melódicos, que em algumas ocasiões  me lembram  momentos de meus primeiros passos na música, na física e agora em meu principal  interesse de pesquisa.

Foi nessa vibração na corda do violão que começaram meus primeiros passos pelo conhecimento do timbre na música.

Dia 12. As teclas

Meu novo trabalho na pesquisa me faz ficar mais tempo perto destas teclas, que toco cada dia, que me fazem ficar mais perto de pessoas, de ideias, de criação artística ou intelectual.

As teclas que sem sons produzem ritmo

            As teclas que sem sons produzem harmonia

As teclas que sem sons produzem música

                                   As teclas que sem sons produzem afeto

As teclas que sem sons produzem calor

As teclas que sem sons produzem palavras

São essas teclas que me fazem ficar perto de tudo e todos!

Dia  18. A panela da cozinha

Os cheiros misturados chegam iguais aos sons, sons das panelas quando a preparação dos alimentos se faz. Sons que falam da dedicação, da habilidade, que me trazem lembranças de minha infância, de minha juventude, sons que podem gerar diversas memórias afetivas, sabores e sensações.

Minha  memória funciona fielmente  a  lembranças que trazem cheiros e sabores, me leva qual máquina do tempo a diferentes etapas de minha vida, nesta ocasião o mecanismo que ativa essa máquina é produzido por um som específico, os sons das panelas da cozinha, e o tempo, para onde viajarei, será definido pela mistura dos diferentes alimentos e temperos. 

                                   Para onde viajarei desta vez? 

Dia 24. O relógio

Tic tac, tic tac… 

            O relógio define o início, 

Tic tac, tic tac… 

                        O relógio  define o fim, 

Tic tac, tic tac… 

                                   O relógio define nosso tempo,

                                                           Único ou relativo?     

Tic tac, tic tac… 

                                                                       O relógio define a transição entre cada etapa, da noite para o dia, da vida para a morte.

60 ppm, só.  
                                   Quanta música escrita aí?                 

Meditar

Ao sentar-me para escrever sobre o tema, sinto o mesmo desconforto das tentativas de meditar sozinha. É um vai e vem de ideias, imagens, sons, etc., que mais parecem um turbilhão do que uma tentativa de concentração. A respiração ofega, os olhos tremem, a distonia incomoda. Os sons chegam a todo volume, secos, graves, martelantes, latidos, gritos, motos, carros… e é neles que presto atenção. Sons da cidade que chegam de fora, anônimos, mas que se adentram e, sorrateiramente, tomam conta de todo o meu corpo, do meu pensamento, como se apenas eles existissem e importassem. Aos poucos, tornam-se uniformes, inaudíveis, e uma sensação de leveza substitui toda inquietação. Saio desse transe momentâneo com um jogo de palavras na cabeça: meditar… me ditar, me editar. Uma nova experiência, novas possibilidades.

É apenas um começo.

São Paulo, Outubro de 2017

Mariângela Di Bella

Rosária de Fátima Segger Macri, Russo, eis o nome

Rosário, Rosália, Rosaria, Maria Rosa… quantas versões pode ter um nome? Corrige e deixa a pessoa sem graça? Ou deixa pra lá, pois o que importa é que te chamem? Na maioria das vezes deixo pra lá, mas não perdoo quando erram ao responder meu e-mail assinado.

Como todo nome, o meu tem uma história. Primeira filha, muito esperada, medo de dar algo errado, é claro que a solução é fazer uma promessa. Que tal dar ao bebê um nome de santa? Nossa Senhora do Rosário de Fátima? Para simplificar: Rosária de Fátima.

Nascido o bebê, com o gênero certo, o batismo não poderia ser assim… simplesinho. Foi na cidade de Aparecida, toda a família presente: mãe, pai, avó, tia, tio, outra tia segurando o bebê no batizado. Não, não é a madrinha, pois ela representa a Nossa Senhora que é a madrinha. Confuso para uma criancinha, não é? Madrinha que não é madrinha… Santa que é madrinha, mas não aparece. Deixa pra lá.

Fora isso, é claro que o bebê tinha que ter todos os nomes do mundo: quatro. Mãe mineira de família pequena, com sobrenome diferente, difícil de escrever: “Segger, como é que se pronuncia mesmo: Seger ou Seguer?” Pai filho de italiano, herdou o sobrenome calabrês: Macri. Tantos nomes e tão diferentes, eles se tornaram um fardo, mas me identificam e a mais ninguém. Ainda assim, do namorado que não acreditava que eu passaria no vestibular, tive que ouvir: “tem certeza que leu o seu nome na lista?” Olhinhos virados para cima: “CLARO que tenho!!!!!”

Época de casamento, toda moça sonha em acrescentar o nome do amado ao seu. Eu, com meu noivo feminista, socialista, quase comunista, quando ouço a pergunta do escrivão: “vai acrescentar o sobrenome do marido?”, penso… Falo que talvez seja melhor não acrescentar mais um nome aos já existentes, mudar de identidade, mudar documentos… Ouço: “mas você não vai usar o meu nome?” “Claro que vou, meu amor!”

Agora são cinco. Dá uma canseira quando ouço: “Por favor, nome completo!” Penso: “não tenho que apresentar documento”; respondo: “Rosária Russo”. Não é completo, mas é a força que me representa. O engraçado é que nunca ouço: “só?”

Rosária Russo, 7 nov. 2017

 

Textos de Alunos e Integrantes do Grupo de Escrita 

Nada me pareceu mais motivante, para começar este blog, do que os textos de uma aluna muito querida de 1997-1999 do Colégio Oswald de Andrade, a Julia Chaim Salles (Ducamin, hoje em dia). No primeiro texto, ela devia ter 15 anos, e, no segundo, 17 ou  quase isso.

Mamãe

Minha mãe tem a face maliforme, coisa que lhe dá uma leviandade que nenhuma outra mãe possui. 

À medida que eu melindrava, percebia o quanto ela tinha influxo sobre mim e me fazia ver coisas novas, perceber que eu não sou monopse, portanto sempre posso reflexionar e encontrar minha posição. 

Minha mãe está sempre colaborando para que nos tornemos mais ilustrados, está sempre presente, nos almoços e nos jantares, em cada prato de arroz e feijão. 

Eu dou boas galhofadas com minha mãe e com o que fazem com ela, mas nós não nos importamos desde que nós, todos nós, consigamos altercar.

Talvez eu seja apenas mais um culteranista, ou mais um fobó, mas acho que mesmo assim sendo, sou ditoso. 

Minha mãe é pródiga, é Severinos de pia, é verme que rói frias carnes de cadáveres, é besouro que deflora Rosa, é grande sertão veredas, é trem de ferro café com pão, é pedra no meio do caminho, é triste fim de majores, é estorvo, é história. 

Minha mãe, meus caros, é a Língua Brasileira!

Julia Chaim Salles, 1997.

Sobre bússolas, navegações e imprecisões

– enfim, sobre a vida –

Precisar não é preciso, por mais incrível que pareça; também não é navegar. A bússola é precisa e é navegar. Viver não é bússola. 

Existem pessoas que tentam fazer de suas vidas uma bússola; o problema é que durante o percurso os nortes mudam. Com o norte vão todos os referenciais e os cardeais nos condenam. Somos os desnorteados da sociedade, providos de tudo, sonhos, anseios, só não de norte. 

A situação agrava-se quando tentam nos impor direções. Somos por natureza ímãs tortos, eletrons desordenados, átomos soltos que não navegam, vivem. 

Ainda construiremos bússolas loucas, que apontem para cima e para dentro, e com essas bússolas orientaremos o preciso, o navegar e o viver.

Julia Chaim Salles, 1999.  

 

Seguem exercícios de escrita do Grupo de 2017…

Um Encontro

Rita Cardeal

Parecia um leve toque no corpo, um chamado baixo mas insistente, uma espera. Eu permanecia na mesma posição, no esforço por me manter atenta à fala que era para todos.

Não entendia tudo o que significava aquela proposta e nem me lembro bem, mas talvez tenha recebido alguma informação sobre os passos seguintes. Com 10 anos sabia apenas, e com certeza, que o grupo escolar se encerraria. Era por isso que ali estava ouvindo a fala que era para todos, a fala de uma professora.

O grupo era minha escola primária, o tempo do meu encontro primeiro com as letras e os mapas. Saber ler e localizar lugares era tão envolvente que me tomava grande parte dos interesses; e, de tal maneira ficava à mercê desta magia, que outras descobertas eram quase esquecidas. À espreita da importância das letras e seus deciframentos, descobri que elas podiam se transformar em palavras, ficar dentro de livros, habitar mentes, traduzir pensamentos, revelar sentimentos. Então era preciso saber lidar com as letras, era fundamental saber ler.

E os mapas, ah os mapas! Lugares e movimentações do que parece estático: as terras que viram montanhas, as montanhas que se desmancham em planícies, as planícies que se interrompem e abrem brechas pra águas e matas. Tudo com nome e divisões. Foi assim minha descoberta de que ao dar um passo poderia estar noutro estado, noutro território, noutro mundo. Descobri que os lugares apenas o são na relação com seus vizinhos, o alto existe se o baixo for seu parceiro.

O grupo escolar ia terminar, à frente vinha o ginásio e para lá estar tinha um curso preparatório que se chamava admissão.

Era em uma aula deste curso preparatório que eu estava quando senti o corpo tocado, o chamado em espera. Naquele momento as letras… os mapas… onde mesmo eu estava? Aquilo não se parecia com palavra falada ou escrita, e do lugar que ficava atrás de mim vinha um certo silêncio, um vazio colocado, algo que não me deixava saber do que se tratava , sem som nem desenho. Ainda assim, ou por isto mesmo, virei-me. Fui acolhida por um olhar, olhos negros que me olhavam, me envolviam, não me deixavam brecha para escapar, se o quisesse. Fui capturada no corpo por olhos que me olhavam e viam em mim e para além de mim o que eu desconhecia, mas do que curiosamente não quis escapar. Foi neste momento infinito que um olhar atravessou meu corpo, embaralhou as letras de minha cabeça, as transformou em sensações, me levou para outro território e me apaixonei pela primeira vez.

 

O Mergulho

Mariângela R. Di Bella

Um mês… um mês que ela se fora sem se despedir, sem avisar, sem dizer nada. Abruptamente, vítima de um acidente fatal. A vida tem essa mania de nos pegar desprevenidos. E, em meio àquele luto sufocante de uma orfandade desavisada, uma viagem inesperada! De repente aquela imensidão meio verde, meio azul: o mar cearense. Um mergulho… tchibummm. E, quando voltei à cena, tudo tinha passado: a dor, o luto, a tristeza, menos a impressão de que aquela imensidão meio verde/meio azul eram os olhos dela. Um reencontro com o olhar meio verde, meio azul! Então, tudo leve. A água meio verde/meio azul levou as lágrimas, o corpo exaurido, os porquês e mandou de volta a alegria, a brisa suave e a vontade de seguir em frente. Afago de mãe. Saí correndo e dei um beijo agradecido nele, que me havia levado para ver o mar.

São Paulo, março de 2017