Yubiry, venezuelana, foi minha aluna no curso de Português para Falantes de Outras Línguas, na UFABC, em 2020., durante seu mestrado. Alguns de seus textos foram para o site da Universidade, dos quais seguem por enquanto os dois primeiros. Yubiry tem muitos talentos e um deles é a escrita – por isso em breve adicionarei mais textos seus aqui.
Crônicas de Yubiry González, Intermediário II, 2020:
Minha Avó
Edita Ramona González, nome que foi dado a minha avó, é quase que a única lembrança que ela tem de seus pais, que morreram quando ainda era uma criança.
Minha avó tinha vivido todos seus anos, antes de se casar, com a sua tia “Monona”, irmã de sua mãe, de quem recebeu algo de educação básica, além de algumas ferramentas de trabalho, como a costura e cozinha.
Quando Edita tinha 19 anos, conheceu seu primeiro esposo e pai de seus primeiros três filhos. Justo neste ponto, começa uma de suas vivências mais difíceis, e que marca um dos mais importantes pontos de inflexão na sua vida.
Seu primeiro esposo era um homem com uma posição social e política muito boa, sendo prefeito da cidade onde morava. Como homem de política, estava acostumado a ter muitas pessoas a seu redor, frequentando diferentes espaços de reunião, negócios e diversão, não sobrando tempo para conviver com minha avó e seus primeiros filhos.
Um dia, depois do nascimento da última criança, sua primeira menina (Silvia), o esposo chegou em casa com outra mulher, sem ter dito previamente para sua esposa que ela iria morar ali.
— Como assim? – perguntou minha avó com muita preocupação. – Ela é aquela mulher de seus lugarzinhos de diversão? Aquela prostituta de quem todos falam?
Muito brava, começou a discutir com ele. Naquele momento, como em muitos outros, ele estava bêbado, e fez uma coisa que nunca tinha feito: golpeou fortemente a minha avó, pensando, talvez, que com a força podia conseguir sua aprovação, mas ela nunca teria aceitado aquela forma de viver.
À noite, minha avó não conseguiu dormir, passou cada hora no quarto dos filhos, chorando e pensando em tudo o que tinha acontecido:
— Mas, para onde? — pensava com muita aflição. — Conseguirei sobreviver com todos os meus filhos sem um esposo? Onde moraremos? Será justo para eles? — essas, e muitas perguntas vinham constantemente no transcurso de cada hora.
Quando eram aproximadamente quatro da manhã, tomou a decisão de fugir, sem um rumo fixo, só para escapar daquela miserável vida que a esperava.
Pegou tudo quanto conseguiu, roupa para ela e seus filhos, algum dinheiro e algumas joias que poderia vender em caso de emergência, e assim com medo, mas também com muita coragem, insistiu em que deixaria aquela vida para sempre, saindo rapidamente da casa.
O menino mais velho tinha apenas quatro anos e, sem entender nada do que estava acontecendo, perguntou:
— Mamãe, para onde vamos? E o papai, por que não vem?
— É melhor ficar calmo, meu filho, precisamos fazer uma pequena viagem — falou com muita placidez minha avó. — Lembra que seu pai sempre fala que, se vocês quiserem fazer uma viagem, podem fazê-la comigo?
Ela conseguiu pegar o primeiro ônibus que passava perto da casa, e, no caminho com os filhos, ia pensando que coisas faria. Ela sabia que o seu marido, quando acordasse, ia se dar conta do acontecido e, se não tentasse ficar o mais longe possível, ele poderia encontrá-la.
Desceu e subiu em mais de cinco ônibus, pensando em ir cada vez mais longe, sempre tentando pegar alguns caminhos pouco convencionais, para evitar ser encontrada.
Era aproximadamente meio dia, um dia muito quente, talvez 40 graus de temperatura, sem comer nada, alimento só para os meninos. O ônibus onde estava foi parado pela polícia, e rapidamente ela pegou os filhos e tentou cobrir seu rosto. A polícia, sem maior escusa, pediu para que descessem todas as mulheres; ela não sabia o que fazer, só pensou que talvez a sorte nesse dia estaria do seu lado.
Um dos policiais perguntou para ela:
— Qual é o seu nome, senhora?
Muito nervosa, e tentando esconder a menina mais nova, respondeu:
— Me chamo Maria.
Rapidamente, o policial se deu conta que nas coisas dela algo estava se movendo. Nesse momento ele retirou as mantas e viu a menina. Imediatamente chamou seu superior, pensando que tinha encontrado a pessoa que procuravam.
O policial superior rápido se aproximou e a reconheceu. Era Edita, a mulher do prefeito. Primeiro ordenou que o ônibus partisse e logo mandou levar todas as crianças para o carro dos policiais; em seguida pegou Edita pelas costas e falou:
— Vamos caminhar um pouco, mulher! Nada de olhar para trás.
— Para onde, policial, para o mato? Preciso de meus filhos, por favor —nervosamente lhe falava.
— Calma, preciso cumprir ordens, não fale.
Caminharam por alguns minutos em direção à mata. Ao chegar lá, ele disse:
— Mulher, mulher… A ordem foi muito precisa: pegar as crianças, matar você e, cumprida a ordem, retornar com eles. Mas eu vou lhe dar uma alternativa. Você vai ter a opção de ir longe, aonde você quiser, esquecer seus filhos, e começar uma vida nova. Nunca mais poderá aparecer, porque sua sorte pode ser outra. Se eu fosse você aceitaria, eu só vou disparar para o ar, mas, se você não aceitar, vou ter que matá-la.
— O que meu marido falou sobre mim, por que me quer fazer tudo isso?
— Ele disse que você tinha roubado umas coisas que ele havia comprado e que isso era uma traição.
Muito confusa, nervosa, com um nó na garganta e baixando a cabeça, falou suavemente:
— Aceito, vou para longe e nunca mais aquele homem vai saber de mim, só por favor não conte nada para meus filhos, deixe que ele dê a versão que quiser.
O policial retornou e falou para seus companheiros:
— O pedido foi cumprido, agora podemos retornar.
Assim, minha avó ficou escondida nessa mata até o final da tarde. Quando saiu dali, pegou um ônibus e continuou seu caminho. Muito longe daquele lugar, mudou seu nome para Eva e, fiel a sua promessa, iniciou uma nova vida. Arrumou um trabalho, e, com os anos, passou a ter a companhia de novos filhos.
Aqueles meninos que voltaram para seu antigo esposo só souberam uma versão da história:
— Sua mãe os abandonou, ela disse que não queria ficar com vocês e decidiu deixá-los comigo porque ela queria outra vida, sem vocês e sem mim.
Dessa forma, com tristeza e posteriormente rancor, aquelas crianças cresceram, transformando-se em adultos que pensavam em sua mãe com raiva.
Depois de 20 anos, aquela menina que tinha uns quantos meses quando a minha avó teve que deixá-la, um dia decidiu procurar a sua mãe, saber por que ela a abandonou.
Foi por vários vilarejos, próximos da sua cidade, e nenhuma resposta. Logo decidiu ir mais longe, aproximadamente oito horas de distância. Ali perguntou a muitas pessoas por Edita, mas ninguém a conhecia. Um dia, antes de ela se decepcionar com sua viagem, uma senhora se aproximou e perguntou:
— Olha, moça, tenho visto você por aqui faz vários dias, e, depois de olhá-la em diversas ocasiões, lembrou-me de uma senhora que chegou há mais de quinze anos por aqui, seu nome é Eva, e você é muito parecida com ela.
A moça se emocionou, e perguntou:
— Onde mora ela? Talvez a senhora conheça a pessoa que estou buscando.
Ela lhe deu o endereço, e rapidamente Silvia se apressou a procurar a casa de Eva.
Quando chegou nessa casa, viam-se seis meninos, bem magros, e descuidados, alguns sem roupa. A menina mais velha se aproximou e perguntou:
— Com quem você quer falar, moça? Você parece vinda dum conto de fadas. Acho que se confundiu de lugar.
Silvia também achou que havia se confundido, mas perguntou se ali morava a senhora Eva.
— Claro! É nossa mãe. Tem sorte de encontrá-la, pois sempre está de viagem trabalhando.
Gritou:
— Mãeee!
“Olha, moça, em minha escola precisam de uma professora, vai ser você?”
Silvia só sorriu.
Eva se aproximou da porta e, quando viu Silvia, suas lágrimas começaram a sair de repente, sem explicação, como se o tempo não tivesse passado. Elas se reconheceram, era a sua pequena que só tinha alguns meses desde a última vez que a vira, sem esquecê-la jamais.
Depois de se abraçarem fortemente, Silvia ficou alguns dias ali, ouvindo a verdadeira história da separação dos pais, conhecendo a sua verdadeira mãe, seus novos irmãos e irmãs, cujos nomes ainda não sabia, uma delas minha mãe, compartilhando histórias de vida, oferecendo-lhes um afeto de anos guardado com muito carinho e criando laços que nunca mais desapareceriam.
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Diário temático
Os sons da cotidianidade
O tema relaciona determinados sons de minha cotidianidade, que neste período de quarentena me levam a diversas emoções, pensamentos e/ ou anedotas de minha vida.
Dia 1. Golpes de martelos
Os golpes dos martelos nascem da força de cada homem, ritmicamente perfeitos, com certa aleatoriedade, constroem o futuro desta cidade, constroem os sonhos de muitas pessoas. Essa força fará levantar uma edificação que pode não ter um significado profundo ante muitas outras edificações, mas só penso,
terá algum significado para eles, os construtores?
forma parte de algum de seus sonhos?
sentem-no como parte de sua criação artística?
compreenderam o significado histórico de seu labor?
Por minha parte só penso na importância de cada um deles para o futuro da mesma humanidade.
Os golpes dos martelos de algum jeito nos unem, numa história comum.
Dia 3. late janis!
A linguagem dos cachorros se reduz a pequenos, breves, fracos ou fortes latidos, que nos podem:
Assustar
Incomodar
Fazer lembrar
Ajudar a identificar
É a forma mais próxima para se comunicar com outros cachorros. Janis frequentemente late para outros e algumas vezes eles respondem.
Curiosas, todas as formas de nos comunicarmos!
Dia 8. A vibração das cordas
A energia contida na vibração duma corda é transferida a outras, produzindo às vezes o fenômeno da ressonância; esta nova corda, então, vibrará produzindo um novo som; ambos chegam a essa caixa, acontecem reflexões, interferências, difrações, e possivelmente conseguiremos ouvir outros sons que nasceram de todo esse processo físico.
O som claro e escuro
O som brilhante ou opaco
O som nítido ou embaçado
Cada um deles, com suas qualidades tímbricas, pode chegar a se transformar em pequenos e breves fragmentos melódicos, que em algumas ocasiões me lembram momentos de meus primeiros passos na música, na física e agora em meu principal interesse de pesquisa.
Foi nessa vibração na corda do violão que começaram meus primeiros passos pelo conhecimento do timbre na música.
Dia 12. As teclas
Meu novo trabalho na pesquisa me faz ficar mais tempo perto destas teclas, que toco cada dia, que me fazem ficar mais perto de pessoas, de ideias, de criação artística ou intelectual.
As teclas que sem sons produzem ritmo
As teclas que sem sons produzem harmonia
As teclas que sem sons produzem música
As teclas que sem sons produzem afeto
As teclas que sem sons produzem calor
As teclas que sem sons produzem palavras
São essas teclas que me fazem ficar perto de tudo e todos!
Dia 18. A panela da cozinha
Os cheiros misturados chegam iguais aos sons, sons das panelas quando a preparação dos alimentos se faz. Sons que falam da dedicação, da habilidade, que me trazem lembranças de minha infância, de minha juventude, sons que podem gerar diversas memórias afetivas, sabores e sensações.
Minha memória funciona fielmente a lembranças que trazem cheiros e sabores, me leva qual máquina do tempo a diferentes etapas de minha vida, nesta ocasião o mecanismo que ativa essa máquina é produzido por um som específico, os sons das panelas da cozinha, e o tempo, para onde viajarei, será definido pela mistura dos diferentes alimentos e temperos.
Para onde viajarei desta vez?
Dia 24. O relógio
Tic tac, tic tac…
O relógio define o início,
Tic tac, tic tac…
O relógio define o fim,
Tic tac, tic tac…
O relógio define nosso tempo,
Único ou relativo?
Tic tac, tic tac…
O relógio define a transição entre cada etapa, da noite para o dia, da vida para a morte.
60 ppm, só.
Quanta música escrita aí?