O buraco da Consolação

Passando por debaixo do Minhocão, reparei na ausência dos moradores de rua que ali costumavam ficar.

Poucos metros depois, minhas dúvidas deram lugar a uma cena perturbadora e impactante. Aqueles por quem eu procurava estavam todos incrustados nos buracos das paredes do túnel que sustentam a Consolação e a Praça Roosevelt, chamado por aqui de Buraco da Consolação.

Feito bichos (vermes) em suas tocas (seus buracos putrefatos), não sei ao certo quantas dezenas, entravam e saiam daqueles buracos, supostos e temporários abrigos, nos apontando para o descaso e a desassistência vivida por tantos em São Paulo e pelo mundo afora.

A frase “O homem é o lobo do homem.” (1) não parava de me rosnar, feito uma onomatopeia viva. Seguindo meu percurso, um turbilhão de pensamentos sobre a natureza humana tomou conta de mim, sem o menor dó. Imagens de refugiados por terra ou mar, de expatriados, de explorados, de civis e soldados em guerra, de desabrigados, de toda a sorte de homens, mulheres e crianças sem sorte, encheram os espaços vazios do meu carro, me espremendo em uma angústia que pouco me deixava respirar.

Por ironia, o endereço do meu destino era o Paraíso. Quase chegando, parando no sinal, presencio o final de um assalto. Um jovem correndo feito maratonista com algo na mão e um senhor, já de idade avançada, vociferando atônito, reclamando seu celular. Pensei: o paraíso não existe, é só nome de bairro…uma utopia.

Na volta, o Waze me ordenava um caminho um pouco mais longo, porém menos congestionado, passando pela Liberdade. Contrariei o aplicativo, falando comigo mesma, e com meus inúmeros passageiros imaginários, que não iria cair novamente numa roubada. Se no Paraíso a cena era dantesca, imagine o que eu poderia encontrar na Liberdade!!!!!

Peguei o caminho conhecido de volta, lembrando que tinha que reler o pequeno texto de Ruysbroeck, O anel e a pedra brilhante. E, passando novamente por aquele túnel, não pude deixar de pensar numa passagem do texto que me capturou: “Pela boca do Profeta, o Senhor também disse de Si mesmo: ‘Eu sou um verme e não um homem, desprezado pelos homens e rejeitado pelo povo (17).’ ” E ali estavam dezenas de Senhores, desprezados por todos nós, também vermes.

Durante a releitura, só pude pensar que a pedra de cada um não brilha intensamente, nem é vermelha como uma chama ardente, não é pequena e redonda e, muito menos, completamente plana e leve, como descreve Ruysbroeck. A pedra de cada um de nós, humanos, não é virtuosa. São pedras duras, brutas, que constroem muros que tapam alguns buracos pela via da consolação.

Mariângela R. Di Bella

SP 23/10/23

(1)- Thomas Hobbes (1588-1679), autor do clássico Leviatã, foi o responsável por divulgar a célebre frase “O homem é o lobo do homem”, inserida no seu livro mais famoso. A frase original, no entanto, traduzida para o latim como “homo homini lupus“, pertence ao dramaturgo romano Plautus (254-184 a.C.). A oração, metafórica, quer dizer que o homem é um animal que ameaça a sua própria espécie. O que a máxima sublinha é a capacidade destruidora do ser humano contra os seus.